O DOCE MISTÉRIO DO PORVIR

A despeito de tudo (ou do próprio nada), comprovadamente estamos aqui (nós e o universo), pois definitivamente somos algo (cogito, ergo sum?)

Antes de qualquer consideração, já nos vemos enfeixados em dor, frio, fome, prazer, medo… Isso graças aos nossos sentidos (sensores), sensíveis até demais.

Esse início ruim parece ser como que uma fase de adaptação, pois quando enfim vem a calmaria, vem junto também os primeiros deslumbramentos, mas que normalmente passam com os anos.

Por isso as crianças são mais felizes, com tanta fartura de curiosidade para ser saciada, vivem em eterna fome de saber (e viver). São sempre otimistas, pois seu futuro está em aberto e é promissor a seus sonhos. Tudo é lindo, tudo é belo, e esse estado contemplativo deveria ser preservado mesmo em idades avançadas, nem que apenas como função medicinal.

Isso porque o adulto comum é aquele que não se emociona mais com nenhum pôr do sol, ou com as estrelas. Já não quer sabem mais de nada. Não se importa de onde veio a própria vida, e apenas se apossa dela meio que indevida e arrogantemente sem mais nada querer saber. Não cultivou sua curiosidade juvenil, chegando mesmo ao ponto de esquecer como isso foi tão bom.

Mas isso é o normal, pois é o que em geral faz todo o reino animal depois de adulto. Afinal a vida pode ser bastante dura, e ir minando o que tem de melhor naquela criança receptiva.

Assim, embrutecido e com a mente já nublada e sem grandes expectativas, esse adulto descamba para tentar curar suas ansiedades e desesperos em duvidosas soluções alternativas, que terminam por matar de vez aquela criança interna. E adeus, felicidade.

Obviamente podemos ser bem melhores que isso. Quem não quer ser feliz de verdade? Basta cultivar aquela mesma primordial alegria de viver, baseada em curiosidade e perplexidade.

Basta nunca deixar que a criança esmoreça, e se a coisa está ficando entediante, basta buscar outras. A leitura e a contemplação por exemplo já são alimento suficiente para tal procedimento.

Segundo os agnósticos, nunca vislumbraremos a verdade absoluta, mas não é por isso que não devemos iniciar sua busca, de peito aberto e sem preconceito, sem medo do que vamos encontrar, afinal não é a verdade o que importa?

Jamais seremos os mesmos apáticos se iniciarmos essa jornada, e não importando a distância da “verdade suprema”, assim percorreremos um maior trecho dessa estrada em sua direção. O saldo sempre vai ser positivo.

Talvez seja para ser assim mesmo, um tipo de trabalho solitário mas ao mesmo tempo em conjunto, e no quadro geral da existência fazer apenas a nossa parte.

Se for assim, prefiro ser um dos que fez a sua parte do que um que não fez nada. Quem sabe para que existimos? Talvez sejamos “sondas coletoras”, semeadas pelo universo afora, apenas para apurar fragmentos da existência para um objetivo maior e sob todos os ângulos, insondável.

Mesmo que os agnósticos estejam certos, e nunca compreendamos o todo, ainda assim prefiro ser um “sensor” útil a essa causa.

Que eu não tenha coletado tudo o que aprendi em vão.

Que no “meu final”, recolham a informação QUE EU RECOLHI.

De todo modo, mesmo equivocada essa visão, cultivar essa “volição do saber” é uma opção prazerosa O suficiente para preencher, divertir e dar sentido a toda uma vida.

O tédio não existe para quem vive por parâmetros desse tipo.

Mas talvez, paradoxalmente o que mais satisfaz nisso tudo é a permanência do mistério, do regozijante mistério…

O mistério é simplesmente saboroso. Gosto de chamá-lo de “o doce mistério da existência”, …e acho que sempre vai haver o maior de todos, já que em detrimento do nada, existimos.

CIÊNCIA x RELIGIÃO

No espetacular filme “Contato”, de Robert Zemeckis, baseado no estupendo livro de Carl Sagan (Aliás eu vivo recomendando os dois para todo mundo), o personagem do padre diante da protagonista, uma cientista obviamente sem crença em Deus, em determinado momento de um diálogo pede para que ela PROVE que ama o pai.
Aparentemente ela ficou sem resposta, e assim o filme meio que “demonstra” que talvez não seja tão importante assim ter provas para algo tão importante como Deus ou o amor…

…mas temos uma trapaça aqui.

Nós humanos costumamos criar e conviver com algumas idéias abstratas, mas se olharmos sob a luz da razão, a maioria delas não existem.

A personagem, cética que é, deveria responder que “ama” sim o pai, mas que esse rótulo é um apenas um enfeixamento, um aglomerado de confusas emoções, que nos arrebata, nos domina, mas apenas refletem toda a biologia a que nós, animais estamos sujeitos.
Na verdade “amor” não existe, assim como “vontade de espirrar” ou “de rir”… mas acostumamos a dizer “eu amo” como uma espécie de resumo de tudo o que estamos sentindo em algumas situações, sem questionamento e por puro senso comum, afinal todos crescemos ouvindo essas coisas. Por exemplo, dizemos que estamos “morrendo” de vontade de alguma coisa, mas ninguém acredita que realmente tem alguém morrendo… e por aí vai… ESSA SERIA MAIS OU MENOS A RESPOSTA DE UM CIENTISTA REAL.
Do modo que ficou, o roteiro do filme tenta comparar a “fé em Deus” como uma verdade, tal como “sentir amor”, pois os crédulos “sentem a fé” mas  não têm como provar. Ora bolas, assim se eu quiser por exemplo que o saci-pererê exista, basta então que eu acredite nele? Muito fraquinho o argumento, e para mim, é o pior momento do filme. Se bem que podemos imaginar também que a personagem cientista seja focada somente em ASTRONOMIA e não tenha interesse algum em BIOLOGIA, não é? Seria meio que tapada, então…

Mas entendo que uma das intenções seria passar a idéia de que ciência e religião devem conviver/tolerar uma a outra, etc.

Mas enfim, o filme é para mim um dos melhores já feitos. Sempre me emociona e sou fã de carteirinha. Também  já li e reli o livro do velho e bom Carl Sagan, que sei que jamais escreveria essa parte do roteiro.

O CAIXÃO E O ÔNIBUS: (Pensar é inevitável…)

Em maio de 2011, tirei uma foto muito estranha, e logo vi que seria notícia. Mandei pro Globo (G1).
Em meia hora me ligaram para mais detalhes. Eles publicaram logo em seguida, mas mudaram parte do texto e excluíram o final filosófico. (Clique, leia como ficou e também leia os divertidos comentários dos leitores)
Apesar de tragicômica, a foto me inspirou filosoficamente. Me veio um pensamento engraçado mas real. Mas afinal a vida também não é tragicômica?
O texto original era esse:
“Jardim Gramacho, uma tarde chuvosa de sexta-feira. Nenhum cemitério por perto, nenhum necrotério no bairro… e mesmo assim, encontramos perdido no chão o impensável: UM CAIXÃO! Ali, largado na esquina… (QUEM É QUE JOGA FORA UM CAIXÃO???)
Uns populares que passavam arregalavam os olhos, outros se benziam, outros simplesmente não acreditavam! MISTÉRIO TOTAL…
Depois de algumas horas, o caixão SUMIU! (QUEM É QUE PEGA UM CAIXÃO JOGADO NA RUA?)
Para finalizar, um ônibus pára ao lado, para deixar passageiros. Intuindo a oportunidade, eu saco a câmera e registro o flagrante, e a foto é reveladoramente quase mística.
Só nos resta a reflexão final, O corolário definitivo, talvez enviado do além como sabedoria absoluta: Uma parábola para a nossa vida, uma piada para a nossa existência:
“NO FINAL DE TODA VIAGEM, O DESTINO É SEMPRE O MESMO”

RESUMO DE MINHA VIDA…

HA HA HA HA, Muito bom! Parabéns ao Cristopher Browne

HOMO MACULATUS

Para mim, uma das maiores evidências de que os seres vivos não foram criados por algo divino (Deus, etc) é a sua própria natureza “suja”, material e mecânica. É como se fôssemos engendrados, arremedados meio que “às pressas”. Não parecemos nada perfeitos ou divinos já que fomos fabricados hidraulicamente, movidos com pistões e tendões e lubrificados com mil gosmas hormonais, e eletrificados por espasmos bio-elétricos.
Se fôssemos como dizem os criacionistas, criados à imagem de Deus, seríamos verdadeiras obras de arte, talvez ocos como a boneca Barbie, mas magicamente móveis, sem o “mecanicismo” grosseiro que nos move. Ou talvez fôssemos preenchidos com matéria sólida, mas divina, que inquestionavelmente nos deixaria sem explicações “materiais”. Ou então talvez, seres de luzes e energia, por que não? Assim todos adorariam o criador sem dúvida.
Mas não: Temos no organismo estruturas “robóticas” que até expressam um tipo de micro engenharia, mas bastante rasteira perante os poderes cósmicos. Temos dor de barriga, vermes, piolhos, câimbras, mau-hálito, etc. Estamos presos numa cadeia natural junto com outros animais, e o universo sempre parece ter existido sem os homens por 99,999% de seu tempo e pelo jeito deve continuar para sempre depois do homem ter perecido.
Estamos presos entre duas eternidades: o passado e o futuro.
É, meu amigo! Não tem com concluir outra coisa! Se houve criação foi no início de tudo, se é que houve um início. Nós, homem, terra, sol, galáxia, e tudo que enxergamos, somos uma parte muito sólida, muito suja até. Não! Não podemos ser divinos. Não viemos do pó, e sim da lama.
O que nos confunde é termos dentro de nós processos de pensamentos. Mas acho que nossa mente é provavelmente uma exceção, uma anomalia no universo que deu certo, ou seja, nos faz pensar! Einstein estava certo em achar que isso é que realmente é o incompreensível.
O que desnorteia é que somos antropocêntricos, mas eu peço bom senso. Pensem que o universo é virtualmente infinito, e em quatrilhões de outros mundos, a mente não vingou. Deve ser muito raro essa “arrumação” dar certo. E só deu certo porque “o mundo é grande”. Muitas sementes apodreceram para que uma (a nossa) vingasse. O problema é a intencionalidade.
Sejamos mais sensatos e mais humildes, e contemplemos a nossa misteriosa existência aqui do nosso canto a regozijar como um ermitão a descansar afortunado na caverna, entrevendo as estrelas e bem aconchegado, ouvindo o barulho das ondas e dos ventos.
Precisamos aprender a nos deleitar com essa dádiva.

COGITO ERGO PASSUS (PENSO, LOGO SOFRO)

Certa vez, um conhecido meu deu a entender que não se deve falar de tão nobre assunto (filosofia) com palavras comuns. Eu acho que pelo contrário, devemos popularizar o conhecimento. Mas por curiosidade, resolvi “pensar difícil”. Lá vai: (É para você, amigo pedante)
De acordo com a elucubração de Descartes que nos legou a pérola referente ao vínculo do pensamento com a questão do porvir, só nos resta aproveitar de nosso metabolismo e assim, aliados de nossa vasta rede neural, dissecarmos todos os matizes do não menos vasto espectro dos prazeres da matéria e suas ligações físico-eletro-químicas (lindíssimas e saborosas!)
Nada que deva ir intencionalmente de confronto com as luminescências do eminente Sidartha Gautama, que fechou o cerco em cima das volições e anulando todo o querer humano, imaginava uma redenção nirvânica, remindo assim o espírito em detrimento da danação corpórea.
Não atino, logo por isso mesmo discordo, como concluindo nada querer, iria desse revés “querer” de qualquer jeito as inanições, dores e outras carências que mortificariam nosso arcabouço biológico, que em última instância, ou sou eu ou o meu repositório.
Se o Buda estivesse certo, um tiro na cabeça ou uma boa dose de cicuta seria um ótimo atalho para adentrarmos no etéreo nirvana. Seria o corolário do “não desejo” (o de viver). Nenhuma outra atitude de nenhum budista conseguiria superar tal feito!

O MIRACULOSO E O INSONDÁVEL

Eu queria que a raça inteira acordasse.
Que os poetas estivessem certos.
E todos acreditassem no milagre da existência.
É quase místico sentir que existimos.
O universo é composto por um milagre.
O único, definitivo e verdadeiro milagre:
ELE EXISTE!
Se não, pelo menos nós existimos.
No mínimo nossa consciência existe…
E dentro dela, a imagem do Cosmo.
De qualquer modo, é miraculoso…
Por que não existe o nada?
O que fez o todo?
O que fez o que fez o todo?
O que fez o que fez o que fez? (…)
Não me venham com “simplismos”!
Dizer que alguém fez é infantil ou insano!
Seja o que for está acima de tudo!
Dizer ser alguém é minimizá-lo!
Talvez seja uma coisa.
Sim, mas uma coisa cósmica, titânica!
Divina talvez, mas evitemos o rótulo “Deus”.
É um nome que nós contaminamos.
Grupos e seitas se apoderaram do Nome
Muitos atributos, e muitas palavras o deram.
Verdadeira torre de babel celestial.
O ser humano não roga e sim rege a Deus.
Homens minúsculos e arrogantes!
Ponham-se em seus lugares!
Parem de inventar deuses.
Ainda mais deuses humanos e falhos…
Contemplem a natureza, sintam a vida.
Admirem os céus, estudem as estrelas.
Pressintam o abismo do grande mistério.
Aqui está a beleza de tudo!
Sofram com a angústia de morrer sem saber.
Como se fosse a tragédia grega.
O tédio e o contentamento nos matariam
Se vislumbrássemos algo.
Quem disse que podemos saber?
Que direito temos nós, meros vermes?
Sim! Vermes vestidos e com o ego inflado.
Situem-se e sejam mais humildes.
Lembrem-se que o universo não precisa de nós.
Ele existia antes e pode continuar sem o homem.
Ele dispensa nossas vontades e mitologias.
Tudo que é nosso sucumbe diante dele.
Perplexizem-se perante o sagrado todo.
Escancarem as bocas diante dos insondáveis mistérios.
Apreciem o gigantesco e assustador abismo. Olhem bem!
Nenhum céu, nenhum chão: é infinito para qualquer lado.
Assim como nossa ignorância!

UNIVERSOS IMERSOS, IMENSOS…(Universos dentro de outros universos)

 

Estamos todos mergulhados num vasto oceano…
Oceano esse de imagens, sons, idéias e mistérios…
Sentimos, a nós mesmos, como mares isolados
Já vastos o bastante. Já não nos conhecemos…
Somos para nós mesmos como mares nebulosos
Navegamos em círculos, sem vislumbrar destino
Desconhecidos somos a nos vagar…

Fora de nós, orbitam outros também vastíssimos
Somos todos esferas de mistérios…
…Tentando em vão a decifração final. (Que ousadia!)
Oceanos desmedidos, flutuando noutro maior…
…Muito maior… Imemorial…Titânico… Imensurável…
Podemos ousar entender? Ousemos entrever o porquê?
Se somos inalcançáveis enigmas para nós mesmos…
Se somos também infinitos…que dizer de todo o resto?
Quem somos perante o Cosmo ilimitado, 99,999% oculto?
…Só podemos contemplar…
             …Só nos resta existir
                    …Nada mais…

O PULO DO GATO CÓSMICO

PODEMOS ROTULAR, NOMEAR.
CLASSIFICAR AS REGRAS
DESVENDAR PARTE DA MAGIA
VISLUMBRAR DE RELANCE O PERFIL DO JOGO
OBSERVANDO A PONTA DO ICEBERG
NÃO IMAGINAMOS SUA PROFUNDEZA
VEMOS DE RELANCE O ABISMO, ONDE PERPLEXOS,
SABEMOS ESTAR LÁ MERGULHADA NA ESCURIDÃO
PRATICAMENTE TODO O RESTO DA MONTANHA…
OH! GRANDE MONTANHA DESCONHECIDA
OH! COSMO INALCANÇÁVEL…
MINHA FOME DE VOCÊ ME DEVORA
MAS COMO PODE O NADA ANSIAR O TODO?
ESSA FOME NÃO PODE SER APLACADA
(SINTO-ME COMO UM SEDENTO ANDARILHO
QUE DIANTE DA GÉLIDA MONTANHA
PUDESSE SORVER APENAS UM GOLE ÍNFIMO DE TODA AQUELA ÁGUA)
…É PRECISO APRENDER A VIVER SEDENTO.